Estávamos a jantar e ele disse: já não sei se te quero como mulher ou como amiga
Estávamos a jantar e ele disse: já não sei se te quero como mulher ou como amiga. Bacalhau à brás. Quarta-feira. Os miúdos no quarto a jogar Roblox no tablet do irmão mais velho. A frase saiu sem preâmbulo, entre uma garfada e a pergunta se eu queria mais vinho. Onze anos casados. Catorze anos juntos. Três miúdos (10, 7, 4). Vivemos em Lisboa, Príncipe Real, num apartamento que comprámos antes dos miúdos quando as casas ainda eram acessíveis nesta zona. Sou enfermeira no Hospital de Santa Maria, trabalhei por turnos durante anos, agora em horário fixo desde há quatro anos. Ele é arquitecto, freelancer, trabalha sempre de casa. Não é falta de sexo. Temos sexo. Talvez não com a intensidade dos vinte e três anos mas regular. Não é falta de amizade. Falamos. Ríamos no fim-de-semana de uma coisa parva do filho do meio. Ele disse a frase e ficou a olhar para mim com a expressão de quem disse algo que estava à espera há muito tempo. Eu não soube responder. Disse 'vamos pôr os miúdos a dormir e falamos depois.' Pusemos os miúdos a dormir. Não falamos. Foram seis dias. Alguém viveu este tipo de frase? Era um aviso de fim, ou uma tentativa de pedir algo que ele próprio ainda não sabe formular?