Pensei que o estilo de vida nos ia salvar e agora não tenho a certeza se nos restou alguma coisa para salvar
Pensei que o estilo de vida nos ia salvar. Em 2020, depois da pandemia, depois de dois anos de quase nada em casa, propus ao meu marido. Ele aceitou na noite seguinte depois de pensar. Casal aberto desde então. Salvou nos primeiros dois anos. Voltámos a falar. Voltámos a olhar um para o outro. Voltámos a sentir que éramos um casal e não dois colegas de quarto a dividir os custos da renda da Boavista. No terceiro ano começou a tornar-se rotina. Aplicação no telemóvel, scroll, like, encontro num apartamento alugado, voltar a casa, dormir, trabalho na segunda. No quarto ano, agora, vejo-o aos jantares e percebo que não temos nada a dizer um ao outro que não passe pelos outros casais. As conversas são todas 'lembras-te de tal', 'e aquela vez em Aveiro'. Nunca mais é sobre nós dois sozinhos. Como se sozinhos não soubéssemos quem somos. [F47] eu, advogada num escritório do centro do Porto, [B49] ele, engenheiro civil. Sem filhos por escolha. Casados há dezanove anos. A minha irmã, que mora em Braga e não sabe disto, disse-me ao telefone na quarta que eu pareço cansada. Não sou cansada de trabalho. Sou cansada de gente. Como saímos disto sem destruir a casa que construímos com isto? E pior, se saímos, o que sobra entre nós dois sem o estilo de vida que se tornou o nosso idioma comum?